segunda-feira, 27 de julho de 2009

Os cornos e a globalização



Alexander Ellis, Embaixador Britânico
16:43 Quarta-feira, 8 de Jul de 2009

Quando cheguei a Portugal em 1992, fui logo comprar um carro - descobri que uma colega minha estava a vender um Peugot 205, e dei umas voltas pelos arredores de Lisboa para experimentar. A páginas tantas, um carro apareceu muito grande no retrovisor - era alguém a praticar aquele desporto nacional estival a que chamo de "colado ao da frente a 140 km/h na autoestrada". A minha colega não gostou, e fez um gesto que não percebi, mas que teve uma reacção rápida, furiosa e, imagino, desejada. O condutor atrás de mim enloqueceu, gritou-nos, tentou forçar-nos a sair da autoestrada, e ultrapassou-nos desejando uma morte súbita para mim, para ela e para Sua Majestade etc.

Pois sim, ela tinha feito os "cornos". É um gesto que só voltei a ver na semana passada. Logo pensei que apesar de facto de vivermos num mundo globalizado, onde marcas e lojas são cada vez mais iguais seja em Londres, Lisboa ou Lima, ainda não há uma globalização tão clara dos gestos. Imagine-se o mesmo gesto feito na Camara de Comuns; a reacção seria não de indignação, mas de confusão. Será que o Senhor Ministro está a fazer um protesto sobre o tratamento dos touros nos países latinos? Ou talvez que esteja a imitar um Sputnik? Imagino ainda pior fazer o mesmo gesto no Parlamento Europeu; os portugueses, espanhóis, etc, ficariam ofendidos - os nórdicos perplexos - e os tradutores sem palavra.

Graças à BBC, os meus compatriotas receberam um guia sobre a história do gesto e do conceito, tocando em temas de Chaucer e Shakespeare, não resistindo, constato, a atribuir a origem de tudo à lingua francesa (um velho reflexo do meu país).

Sim, há gestos universais, normalmente utilizando um só dedo. Mas há muitos cujo sentido varia conforme o país e cultura; recordo uma campanha de marketing dum banco explicando, por exemplo, que mostrar as palmas das mãos numa cultura é mal educado, numa outra cultura é chiquíssimo. E mesmo aquele gesto universal do dedo é, de facto, mais um exemplo dum produto americano que está a engolir o mundo inteiro - o gesto típico no Reino Unido da minha juventude era dois dedos, não apenas um. Sou, em geral, pela promoção das diferentes culturas, comidas, línguas, etc - ao qual junto agora gestos (no lugar certo e da maneira certa, claro). Viva a diferença!

in Um Bife Mal Passado, Bolg do Embaixador Britânico em Portugal

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