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domingo, 12 de julho de 2009

O Perfil de Nun' Álvares por Franco Nogueira


Nuno Álvares, logo nomeado condestável, era de outra matriz humana. Impetuoso, ardente, místico, Nuno Álvares é o cavaleiro medieval. Desde novo, deixa-se absorver pelas histórias de Galaaz e da Távola Redonda, e sonhava para si demandas do Santo Sepulcro e do Santo Graal. Embrenhava-se nas artes militares; considerava o rei e a coroa como entidades sacrossantas; mas entendia que aquele e esta deviam estar ao serviço da numerosa hoste que era o povo. Personificava a ousadia e o destemor; e aos vinte e dois anos, julgando ferida a sua dignidade de oficial português, afrontou João de Castela, desconsiderando-o em público, com serenidade e aparato. Ficava atónito perante as tergiversações do Mestre; mas não desanimava; e transmitia ao seu ídolo a coragem de altas empresas. Para o Condestável antepunha-se a tudo o interesse do povo português, de cujos instintos profundos se sentia irmanado; e defendê-lo de Castela constituía a sua missão suprema. Como guerreiro, era chefe; e os demais, mesmo os velhos e experientes, aceitavam-no naturalmente nessa qualidade. Dos que o acompanhavam, se eram maus, fazia-os bons; e, se eram bons, fazia-os melhores. Sempre se houve com heroísmo e honra: no campo da luta, como capitão; em negociações políticas, como plenipotenciário; em expedições de África, como soldado de um reino em ascensão. Era afável de palavras, e acolhia comedidamente quantos da sua hoste dele se abeirassem, tanto capitães como homens de armas; mas no arraial, em curso de batalha, impunha-se e era temido como Senhor; e tornava-se bravo se alguém desobedecia ao regimento que lhe fora dado. Haviam-lhe medo os pequenos, e receio de o anojar os fidalgos e cavaleiros; mas depois da luta, por encobertos modos e graciosos gestos, procurava maneira de emendar os rigores de que tivesse usado. Não tinha cobiça, e das presas de guerra nenhuma guardava para si; e regia com muita justiça o que lhe estava confiado, resolvendo por «direita balança» os pleitos que lhe eram submetidos. Fazia esmolas e praticava caridade, especialmente em favor de envergonhados, viúvas e órfãos; e, quando morreu a condessa sua mulher, não voltou a casar-se e entrou em mística religiosa. Depois de assinadas as pazes com Castela, professou; e foi Frei Nuno de Santa Maria. Cumprira a sua missão: perdoou as dívidas, distribuiu as riquezas, repartiu o património de terras e vilas. Aniquilou-se. Vestiu o seu hábito, que considerava a sua mortalha. Recebeu uni dia a visita do embaixador de Castela, e na sua cela acolheu o enviado. Perguntou-lhe o embaixador: «Não despireis jamais essa mortalha?». Respondeu Frei Nuno: «Sim, se el-rei de Castela outra vez mover guerra contra Portugal». O embaixador, assombrado e de cabeça pendida, saiu da cela. Perante a alusão aos perigos do reino, ressuscitava o capitão indomável; e quando soube, já adiantado em anos, que praças portuguesas de África estavam em algum risco, do seu convento do Carmo atirou ao Rossio uma lança, exclamando: «Em África a poderei cravar, se preciso for». No cabo da sua existência, pouco saía. Envolto na estamenha em farrapos, com uma gorra desbotada a cobrir-lhe a cabeça, inclinado para a frente, apoiado a um bordão, passos arrastados, rosário nas mãos, ia por ruas e vielas e bairros escusos fazendo esmolas e amparando aflitos e ansiosos. Em l de Novembro de 1431 - quarenta e seis anos após Aljubarrota — morreu Frei Nuno. Foi profunda a emoção do reino, e sofreu-a fortemente João I. Este tinha a certeza íntima de que devia a Nuno Alvares o trono; e o povo, no seu instinto colectivo, sentia que desaparecera o arauto da honra, do interesse e da independência da nação. Foram-lhe feitas exéquias régias. João I assistiu: mandou dispor a seu lado uma cadeira vazia: a sua consciência nacional, amadurecida pelo governo, dizia-lhe que o Condestável fora um dos raros portugueses sem os quais o reino não seria o que era.

Albeto Franco Nogueira, As Crises e os Homens, Ática, Lisboa, 1971, Págs. 82-85

terça-feira, 23 de junho de 2009

A Cruz e a Espada, por Couto Viana

(Ao Nonas)



— Repara, Beatriz: os Castelhanos avançam! E o nosso Condestável ali posto a rezar!
— Assim faz sempre antes das batalhas. Roga ao Céu que lhe dê a vitória. E Deus tem-no escutado.
— Já por três vezes o seu pajem veio chamá-lo. Se não o atende, estamos perdidos! Ouvem-se, cada vez mais perto, as trombetas inimigas, o tropear dos cavalos, o alarido da soldadesca...
— Não, Pedro: D. Nuno Álvares Pereira não nos abandonará. Graças a ele, temos um rei nosso e é nossa a terra que pisamos.
— É um herói!
— E um santo!


D. Fernando deixou, como herdeira da coroa portuguesa, sua filha D. Beatriz, casada com D. João II de Castela.
Iríamos, pois, ter um rei estrangeiro se D. João, Mestre de Avis e filho bastardo do rei D. Pedro, não se proclamasse, apoiado pelo povo lisboeta, Defensor do Reino.
E bem o defende, já como rei (o doutor João das Regras provou que era ele o nosso legítimo soberano), e com o auxílio heróico do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, derrotando os castelhanos invasores em várias batalhas, sendo a mais importante a de Aljubarrota, travada no dia 14 de Agosto de 1385.
D. Nuno é das maiores figuras da nossa História: além de guerreiro invencível, a sua profunda fé católica fez dele um santo que a Igreja beatifi-cou. O seu rei e amigo cumulou-o de honrarias, mas ele a tudo renunciou, recolhendo-se ao Convento do Carmo, que mandara construir, e onde morreu humildemente.
D. João l casa com a princesa inglesa D. Filipa de Lencastre, e quatro dos seus filhos distinguem-se pela inteligência e nobreza de carácter: D. Duarte, que sucedeu ao pai e foi escritor e filósofo; D. Pedro, sábio e grande viajante; D. Henrique, iniciador das descobertas marítimas, e D. Fernando, o Infante Santo, sacrificado em África para que Portugal ali se mantivesse.

António Manuel Couto Viana, A minha primeira História de Portugal, Verbo, 1984, Págs. 12 e 13
Ilustração de Fernando Bento

D. NUNO ALVARES PEREIRA por Pinheiro Chagas

(Ao Nonas)



É o mais brioso paladino da nossa historia, e um dos mais notáveis guerreiros de Portugal. Foi, bem o podemos dizer, o Achilies portuguez, porque foi como Achilles invencível. Nasceu a 24 de Junho de 1360 no Bomjardim, junto da villa da Certa segundo as melhores opiniões; era filho do prior do Grato D. Álvaro Pereira, que na batalha do Salatlo muito se distinguira. Enthusiasta, desde creança, pêlos romances de cavallaria, folgando de imitar os heroes d'esses livros, sempre valentes como as armas e leaes como as suas espadas, distinguiu-se já nas guerras de D. Fernando contra Castella; mas a sua brilhante carreira começa verdadeiramente, quando, em 1383, tomando o partido do Mestre d’Aviz, o eleito do povo, a quem consagra desde então affecto inabalável, se mostra o mais firme esteio do seu throno, e da independência da pátria. É o terror dos castelhanos; o seu valor, e ao mesmo tempo o seu instincto militar, sempre lhe asseguram a victoria; derrota-os em Atoleiros no Alemtejo em 1384; voa a Coimbra a sustentar nas cortes a causa do Mestre d'Aviz; aconselha-o, quasi que o obriga, a dar a batalha d'Aljubarrota; contribúe mais do que ninguém para essa gloriosa victoria; entra depois em Castella com cinco ou seis mil homens; destroça em Valverde junto do Guadiana trinta e trez mil castelhanos; em todas as invasões, em todos os recontros, é sempre o primeiro na vanguarda. Quando a guerra da independência termina, e a expedição de Ceuta se resolve, lá vae ainda entre os expedicionários o velho condestavel! O seu rei e seu amigo fel-o conde de Barcellos, conde d’ Ourem, conde d'Ar-rayolos, condestavel do reino, mordomo-mór do paço; assim recompensado e poderoso, larga tudo para ir viver vida modesta e obscura, no silencio do claustro, recolhendo-se ao convento do Carmo, que fundara em Lisboa, e onde morreu a l de Novembro de 1431.
Sua filha D. Isabel casou com D. Affonso, filho bastardo de D. João i; e d'esse matrimonio proveio a casa de Bragança, que hoje occupa o soiio de Portugal.
Valente, ninguém o foi mais; de lealdade, era um modelo; austero nos costumes, religioso, a todos dava o exemplo da piedade e da moralidade. Desabrido ás vezes com o seu rei, que lhe tolerava tudo, cheio de preconceitos da velha nobresa, resistindo por conseguinte ás tentativas de D. João I para aplanar, emvolta do solio, esse terreno desegual, formado pelas classes privilegiadas, esquecia todos os dissentimentos, quando o seu companheiro d'armas, o seu amigo lhe estendia os braços. Aquelle espirito enthusiaste e eternamente juvenil, aquelle coração d'oiro, conservavam, sempre vívida, como em sacrário íntimo, a chamma da amisade fraternal, que unira desde tenros annos os dois heroes d'Aljubarrota.
Era verdadeiramente uma figura épica a do Condestavel, mas tinha no carater a bondosa mansidão dos fortes. Se a sua physionomia, na agitação das batalhas, lembra as figuras da Ilíada, na meia luz da intimidade, traz-nos á memoria aquelles vultos que Homero, na Odysséa, tão docemente agrupa emtorno dos velhos lares da Grécia.

M. Pinheiro Chagas, Portuguezes Illustres, Lisboa, 1873, págs. 18-20