Mostrar mensagens com a etiqueta Livro da Semana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livro da Semana. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Livro da Semana 5

Lavagante, Edições Nelson de Matos, Lisboa, 2008
O livro da semana lê-se numa tarde. Num piscar de olhos chega-se à última página. Pois como João Pereira Coutinho um dia escreveu sobre Lobo Antunes, há quem escreva como o Fred Astair dançava. É o caso de Cardoso Pires.

Assim como o um critico exclamou que Emanuel Nunes sabia começar uma ópera; o supra citado João Pereira Coutinho escreveu que o José Cardoso Pires sabia começar uma obra. Quando? Ora, quando invocava no Expresso o início do livro: «Bebemos mais um copo: o oitavo ou o décimo, não sei bem». É Genial!

O livro relata a história de um amor proibido de Daniel, um sujeito que acaba de deixar o Aljube, onde «aprendera a guardar uma distância quando se observa em certas ocasiões, como é próprio dos indivíduos habituados a viver sós. Então tratava-se por rapaz e punha nisso a tal distância, o humor e a ternura de quem se dirige a um estranho que se pretende corrigir. "Rapaz", repetiu vezes sem conta na sua cela do Aljube. "Calma, rapaz."» (págs.50-51). A obra é uma conversa entre Daniel e o Narrador, onde a «sombra de Cecília paira sobre mim e o Meu Amigo, dois conversadores nocturnos sentados sob o alpendre duma casa de praia. É por enquanto uma sombra, um contorno de mulher, seu quiserem. Esse contorno compõe-se de instantes de memória, deslocados no tempo e na distância, tal como sucede com os farolins das embarcações de pesca que andam ao largo» (pág.37). Quem é Cecília? Esse amor que sendo proibido, é correspondido; é «um punhado de instantes luminosos, dispersos no tempo e arrastados pela voz de um companheiro que a evoca» (pág.38). E a descrição física é de ir às lágrimas (veja-se as páginas 27 e 28).

A metáfora do Lavagante é muito bem conseguida: quem espera sempre alcança, poderia exclamar o leitor. É que de facto, tal como o Lavagante faz ao Safio, esse marido amorfo e cornudo que na obra é continuamente aviltado, vai lentamente deixando a traição da mulher consumar-se, para, num gesto frio e vingantivo, por fim a um amor que era legalmente impossível. Atirando para a cadeia o amante da mulher que «hora a hora, minuto a minuto, foi compreendendo que alguma força lá fora o mantinha afastado do mundo, no isolamento a que estava reduzido, e que essa força poderia ser a mesma que tinha libertado Cecília ao fim de poucas horas» (pág.82), o Engenhiro, acabaria não só por se identificar com o lavagante, mas também por inverter o seu paradigma, e porque numa «questão táctica [...] para ganhar uma presa é necessário às vezes soltar a outra» (pág. 83), o Safio, neste caso Daniel, será libertado pela mão invisivel do mesmo Engenheiro, sob uma implícita e tácita condição de Cecília, a outra presa, se manter fiel. Concluirá Daniel: «Todos os bichos sabem isso, e o lavagante também. Se sabe!» (pág. 83).

Politicamente o livro está encharcado. Mas que esperávamos? É Cardoso Pires!
O amante traído, esse famoso Sapo, um «fascista daqueles», surge como um engenheiro e acaba como um PIDE que continuamente é chamado de mau homem (p.e. safado pág.45). Há também as referências à censura, como o discurso inicial do jornalista bêbado de 39 anos («Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?[...] A minha mão medrosa está viciada, amigos, escreve com medo...» cfr. pág.13), esse msmo discurso que levará o narrador a interrogar-se se poderia «reduzir um homem a um grito?,[...] ouvindo os lamentos do jornalista nosso companheiro» (pág.21). Esse mesmo Jornalista que insultará continuamente (Cabra, grandecissima cabra...18) Cecília, a femme fatale da história.

Mas, como desde já se vê, literáriamente Cardoso Pires é um maestro. Atente-se as descrições citadas. E leiam-se as passagens: «Diante de nós passam os autocarros vazios, de regresso a Lisboa, e veraneantes a caminho das esplanadas e do cinema da vila. E sobre esta feira sem música, esta procissão de vozes no escuro, um nome se levanta pela primeira vez entres dois amigos em confidências: Cecília» (pág.26); «Doutra maneira seria o strip-tease que conduz ao amor confessional e o amor confessional é a coisa mais complicada que Deus ao mundo deitou» (pág.50); e «Recapitulando, no dicionário de Daniel, Mulher Que Se Olha Ao Espelho é toda aquela que está permanentemente diante de si mesma; o pavor do ridículo caracteristico desta espécie origina, por via de regra, uma incapacidade de se entregar cujas consequências são por vezes dolorosas. A Mulher Que Se Olha Ao Espelho preza-se demasiado (ama-se, é o termo) para conseguir deixar de se estudar nas circunstâncias mais adversas e procura compensar as suas quebras de autoridade com uma critica impiedosa das situações absurdas» (págs.51-52). Ou mesmo a brilhante «E durante cinquenta e dois dias repetiu dolorosamente esse nome: Sapo, o Sapo. Como um relógio a marcar o tempo, como o sangue batendo nas veias» (pág.83). E poderia citar muitas mais (veja-se a Chegada da Primavera nas páginas 63-64).

Não diria que o livro é uma história de amor; antes, conta uma história de amor. Mas o que paira em toda a obra é a imagem dessa Cecília. É ela que está presente em todos os capítulos. É ela o motivo de toda a acção. É ela que começa como uma sombra e acaba como uma imagem concreta. Dúvidas? Leia-se o que o narrador afirma no fim do livro: «AGORA, SIM, vejo Cecília, fria e soberana»(pág.85).

terça-feira, 21 de julho de 2009

Livro da Semana 4

Memórias de um Alcoólico, Antígona, Lisboa, 2001

«A maneira de para a guerra é pará-la. A maneira de deixar a bebida é deixá-la. A maneira como a China acabou com o uso generalizado do ópio foi proibindo o cultivo e importação do ópio. Os filósofos, sacerdotes e médicos da China bem podiam cansar-se de pregar contra o ópio durante milhares de anos, que o uso do ópio, enquanto fosse acessível e fácil de obter, continuaria desenfreadamente. Somos feitos assim e nada mais»(Pág.263)


O que me atrai em Jack London é a sua capacidade de ser um herói realista. Os seus livros tendem sempre a relatar a realidade e nunca o impossível. Contando-nos a história de um herói realista, permite-nos sonhar com um herói real.

Nas memórias de um alcoólico, London relata-nos na primeira pessoa a sua relação com o alcoól, ou se preferirem, com John Barleycorn, como é tratado em toda a obra.
Jack e John são velhos amigos: London inicia o seu contacto com o álcool aos 5 anos de idade, e nunca mais o largaria. E conta-nos o autor que logo aí o detestou, mas com o passar dos anos, se foi sempre vendo em situação de necessidade e próximidade com o mesmo, pois teimosamente "a vida andava sempre de mãos dadas com a bebida"(pág.80). Simultâneamente, Jack vai descrevendo como era o país que conheceu, principalmente pelo mar, e como viviam as várias classes, pelas quais foi, como o passar do tempo e com o seu êxito crescente, passando e convivendo.

Barleycorn é descrito como aquele que "inibe a moralidade"(pág.78), e ao mesmo tempo "diz sempre a verdade"(pág.13). O livro é esta critica e elogio constante a esse velho companheiro dos homens, homens esses que nasceram "não só sem o desejo do álcool, como tem verdadeira repugnância por ele"(pág.14).
O retrato é mais que real: para os mais novos, a bebedeira surge como "ínsignia suprema da virilidade"(pág.75). Recorda Jack London que "todos os caminhos iam dar ao Saloon. Os milhares de caminhos de romance e aventura confluíam para o saloon, e daí para o mundo"(pág.13). E que mais queria um jovem? Queria apenas "ser um homem entre homens"(pág.84). E esta tendência é facilitada pela sociedade que permite que os jovens se aproximem dele. Diz London que "olhando para trás, vi como a acessibilidade do álcool me fez gostar dele"(pág.14).

Barleycorn concede a irracionalidade, levando os homens a assumirem "plena e facilmente quando se está ébrio", "uma conduta condenável e impossível de seguir por alguém sóbrio"(pág.78), sendo esse "um serviço através do qual ele aumenta o seu poder sobre os homens"´(pág.103); mas Barleycorn também une, pois "qualquer individuo sombrio e mal humorado, disposto a tornar-se um inimigo, transformava-se em bom amigo"(pág.76); e também concede imaginação e coragem.

As companhias são importantes. A propósito de uma viagem em que não se abraçara a Barleycorn, escrevendo que "mais ninguém bebia a bordo. O ambiente propício à bebida não estava presente"(pág.266). O mesmo se comprova quando relembra a sua amizade de juventude com os estivadores do porto de Oakland e afirma que por ser o anfitrião, "só podia oferecer a hospitalidade nos termos em que a compreendiam"(pág.83).
Assim, o álcool surge também como uma imposição social. "Bebia por uma questão de sociabilidade e, quando estava sozinho, não bebia"(pág.206). As pessoas não bebem porque o corpo lhes pediu, mas porque socialmente assim é permitido, ou até exigido: porque a alta sociedade bebe para fazer sala, porque os estivadores bebem porque têm sede de aventura, porque os negociantes bebem para fazer negócios.

E o pior, vaticina London, é o carácter infinitamente negativo que o álcool acarreta consigo: o vício. "Era a velha questão. Quanto mais eu bebia, mais tinha de beber para me fazer efeito"(pág.235). É uma questão de habituação. Um hábito que leva à dipsomania. "É que o bebedor perito não bebe para se embebedar. Antes fá-lo para se sentir bem, para se pôr numa disposição agradável, e nada mais. As coisas que mais cuidadosamente evita são a náusea, a ressaca, a impotência e a falta de orgulho de quem bebe em excesso"(pág.229). Mas este caminho é perigoso. É passear na boca do lobo, porque leva os homens a acreditarem "que estão a dominar o jogo".

London inicia o livro prevendo o fim: a morte de John Barleycorn ás mãos das mulheres, pois "são elas que pagam - as esposas, irmãs e mães"(pág.14)- o preço da acessibilidade dos álcool, pois que elas partilham as vidas deles.
E assim acaba por tacitamente confirmar que a mulher é o elemento civilizador do homem. Elas "são quem verdadeiramente preserva a raça. Os homem são esbanjadores, os amantes da aventura e os jogadores; e no fim, é pelas mulheres que são salvos"(pág.264). Como ele.

«Os devotos de John Barleycorn são assim. Quando lhes bate à porta a boa sorte, bebem. Quando não têm sorte, bebem, mas na esperança de boa sorte. Se a sorte é madrasta, bebem para esquecer. Se encontra um amigo, bebem. Se discutem com um amigo e perdem essa amizade, bebem. Se os seus assuntos amorosos são coroados de sucesso, ficam tão felizes que é obrigatório beberem. Se forem abandonados, bebem pela razão contrária. E se não têm nada para fazer, pois bem, tomam uma bebida, seguros de que, quando tiverem tomado um número suficiente de bebidas, as lavas começarão a rastejar nos seus cérebros e não terão mãos a medir com coisas para fazer. Quando estão sóbrios, querem beber, e, quando bebem, querem beber mais.»(Pág.87)

sábado, 11 de julho de 2009

Livro da Semana 3

A Lenda do Santo Bebedor, Joseph Roth, Lisboa, Assírio e Alvim, 1997
Joseph Roth é humano. E sabe bem o quanto custa a vida. O livro é pequeno, mas recheado de humanidade. A um bebado sem abrigo acontece um milagre: encontra um homem supreendente, disposto a ajudá-lo, pedindo apenas em troca que devolva o dinheiro que lhe emprestou a Santa Teresinha do Menino Jesus. O pedinte aceita. E o resto da história é a vida de um homem comum, que procurando ser fiel aos seus deveres, se vê constantemente perdido e ameaçado pelas escolhas que faz. Tudo não passa das mais simples tentações a que teria de dizer não. Tentanções que podiam ser as nossas. E com as quais nos vemos confrotados, na ânsia de alcançara felicidade. Para um católico poderiamos por a questão de forma simples: o amor a Deus é um acto de vontade, que implica uma renúncia a algo, um custo de oportunidade, que nunca é uma perda, mas um ganho.
O tormento do protagonista é esse: a simples incapacidade de corresponder ao que lhe é pedido.
Por outro lado, faz-nos notar o autor, na riqueza do dia-a-dia de Andreas, o nosso herói: a vida é feita de encontros, que nada mais são que pequenos milagres. É a esses que temos que corresponder. Por duas vezes encontra um senhor anónimo que lhe dá dinheiro, um senhor que lhe dá trabalho, um amigo da escola que lhe paga o hotel, um polícia que corre para lhe dar uma carteira que julga ser sua, mas não é. Constantemete vê a solução para o seu problema, o dinheiro para pagar a sua divida surgir-lhe caído nas mãos, mas constantemente lhe dá um uso individo.
Por isso nos dirá sábiamente o autor, que a vida tem que ser um desafio, porque se o não fosse, se tudo nos fosse dado de bandeja, facilmente nos perderiamos.

«Não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos milagres, quando estes acontecem duma forma sucessiva. Sim! A natureza do homem é tal, que este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu prometer. São assim os Homens»Pág. 46

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Livro da Semana 2

O Herói, Pino Farinotti, Lisboa, Princípia, 2009
Pino Farinotti escreveu um livro simples mas actualíssimo: o diálogo entre duas religiões antagónicas, entre duas civilizações distintas. Numa cegueira momentânea, que o leva a considera que os "os muçulmanos fazem o que devem fazer", um cristão - não é católico nem praticante - decide tentar, por provação constante de vários amigos muçulmanos, de tentar entrar e rebentar uma mesquita. Sendo incitado ao longo de toda a obra a através de vários personagens com quem se cruza a cometer tamanho acto, revelar-se-á o protagonista revoltado com o "S. Pedro", porque os que aí habitam "se deixam aniquilar", e por ficarem "inertes, temerosos, cheios de medo". "Não temos força, não temos uma centelha de fé."
A questão que se coloca é essa: será o Cristianismo uma religião frágil, fraca e até auto-destrutiva por força da tolerância e liberdade que propõe? Não deveria o cristianismo eliminar os seus opositores?
O livro é esta constante provocação. Num diálogo entre as personagens, uma delas, muçulmana dirá ao "herói", que se o visse dizer mal da sua religião o mataria logo, mas que se o contrário acontecesse, nada aconteceria.
No momento crucial da estória, o protagonista, Franco Ferrari, desiste do seu plano. O que o move é o impulso que tem de ajudar um muçulmano doente, que se encontra junto a si na mesquita escolhida para o acontecimento fatal.
Aí se comprovará a sua natureza cultural diferente: incapaz de ser mortífero e letal como os amigos que o acusam, a si e aos da sua religião, de cobardia, a personagem principal é incapaz de cumprir a missão a que se propôs. A compaixão é notória e gritante, e fala mais alto, como já se vira no momento em que manifesta o desejo de entrar numa mesquita para a rebentar, mas na hora em que houvesse menos gente, para que daí não resultassem muitas vítimas...
É assim que o autor elimina o problema fatal da história: é que a grandeza do cristianismo não se pode medir pela guerra ou limitação ao opositor, mas antes reside nesse amor ao próximo. Não se encontra na guerra ao inimigo, pois que este só se pode converter por gestos de amizade e não pela força.
Curto, directo, simples e duro: Farinotti reflecte sobre o problema de forma crua.

«-Olhe aquelas janelas. Aquelas iluminadas.
Olhei, seguindo a mão dele.
-Sim?
-Alguma delas pertencerá já a uma família muçulmana. Serão cada vez mais... Agora serão talvez duas, depois serão dez, depois metade, depois todas... Vocês têm o inimigo a poucos cintímetros, à espessura de uma parede. Odores diferentes, ruídos e sons diferentes, mas não fazem nada - disse, sorridente.
(...)
-Não poderemos manter cada um de nós os seus próprios ritos?
-Prevemos isso, mas estamos com a razão. Estaremos a fazer-vos um favor ao trazer-vos para o nosso lado.
-Que simpáticos. Mas suponha que alguém não queria isso.
Votou a apontar para o prédio:
-É uma missão, mas também um honra, para um muçulmano, matar o seu próprio vizinho cruzado. Mas isso não será necessário.
-E o vizinho cruzado não se defenderá?
-Numa luta corpo a corpo, perderá. Disso não há qualquer dúvida.
Isto já me tinha sido dito, e nos mesmíssimos termos.
-Deviam ter feito uma lei que expulsasse todos os muçulmanos do vosso país; mas agora é demasiado tarde - respondeu-me, - Podemos prejudicar-vos, negando-vos o petróleo. E os vossos pacifistas assumirão a nossa defesa.
(...)
-Somos vitais e prolíficos. O ocidente exaurir-se-á devido à esterilidade, até mesmo biológica. Vocês também sabe disso... (...)
-Está muito irritado, não é verdade? - disse Bakr.
Não respondi. estávamos já na Via Foscolo, quase em frente ao hotel. Olhou-me bem nos olhos.
-Não sente vontade de me agredir?
De novo o silêncio.
-Se você me tivesse falado desta maneira, talvez eu o tivesse morto - prosseguiu.»
Págs. 111 a 114

domingo, 5 de julho de 2009

Livro da Semana 1

Nuno Álvares Pereira, Jaime Nogueira Pinto, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009
Do cavaleiro medieval, patriota e crente, passando pelo Condestável e o Mestre de Cerimónias até à Santidade, Jaime Nogueira Pinto percorre as facetas de São Nuno de Santa Maria, lembrando-o como homem decidido e carismático, e como grande representante, como bem dizia o João Marchante, da obediência a Deus, Pátria e Rei.
Disse que foi pela leitura de Oliveira Martins, que lhe fora oferecida pelo seu pai, por entre paragens e releituras de partes menos claras e, na idade incompreensiveis, que conheceu Nun'Álvares e o incluí-o entre os seus "heróis aos quadradinhos". Eu, incluí-o nos meus heróis através do seu livro. Figura histórica, foi grande entre os maiores, conheci-o pela leitura d'A minha primeira História de Portugal, de Couto Viana. Revisitei-o na minha juventude pela Crónica do Condestável, adaptado por Jaime Cortezão, e ultimamente pelo Nun'Álvares, Condestável e Santo de D. António dos Reis Rodrigues. Pelo meio houve a sua lembrança através do estudo da história de Portugal que sempre me aprazou, mas que infelizmente em Portugal não é leccionada como devia. A história é mal dada e a figura do Santo Condestável ignorada.
Por obra da Providência, chegou, como à muito se esperava à Santidade, e pude dedicar-lhe horas da minha ainda juventude, com maior atenção e seriedade que a idade exige.
É ele o meu Galaaz. O cavaleiro das guerras justas, casto, sério, misericordioso e amigo. Carismático cavaleiro, líder nato, que se curvou perante o ideal que descobrira, vivendo sempre neste mundo, pensando no outro. Assim conquistou a santidade. Sabia que Deus era aquele a quem tinha que ser fiel acima de tudo.
Duas palavras o definem: serviço e dever.
É bom relembrá-lo nos dias que correm. Numa época onde faltam as referências, que seja ele o nosso Galaaz, o nosso herói, o nosso épico exemplo de humanidade e santidade.

«O retrato, sendo convencional, dá-nos um homem pouco convencional - na piedade, na fé inabalável num ideal e na coerente aplicação das normas do bom viver cristão»Pág. 157